Capella N. D. de Sion de Petropolis
(Texto
de Heitor da Silva Costa)
Relação dos documentos
apresentados à Congregação da
Escola Polytechnica do de
Janeiro
a) — 4 grandes photographias do
interior da capella.
b) — 5 pequenas photographias da
capella e do collegio.
c) — 2
estudos á lápis (avant projet).
d) — l grande planta e dois cortes verticaes feitos com as cores convencionaes e na escala de 1/50.
e) — 9 grandes copias feitas em
papel vegetal com estudos detalhados e com as designações A. B. C. D. E. F. G.
G' H.
f) — 3 pequenas photographias em chapas de 18X24. Além
desses documentos junto 12 photographias de edifícios e detalhes de
ornamentação utilisados na decoração da capella.
O edifício occupado pelo Collegio Sion de Petropolis foi
projectado e construído em 1907. Compõe-se
de quatro alas em dois pavimentos (tendo mesmo três pavimentos na ala
esquerda) fechando um perímetro rectangular de cerca de 2 8o metros, tendo as
alas maiores 8o metros de extensão e as menores setenta, com doze metros de
largura, em média, cada uma.
A superfície coberta, de cerca de 3.000 metros quadrados,
envolve uma área interna de 36 )x( 56 metros em torno da qual existe uma
galeria em forma
de claustro com columnatas e arcaria, interrompida por muros, somente, na parte que deveria
constituir mais tarde, as fachadas,
principal e posterior da Capella.
Esta Capella foi projectada em 1913, e construída no
anno de 1914 no logar que lhe fora destinado.
Para maior commodidade e melhor
effeito architectonico, lateralmente é ella envolvida por galenas formadas de columnatas e arcarias, eguaes ás anteriormente existentes.
O claustro primitivo acha-se assim
dividido, hoje em dia, em dois outros
menores.
Symbolismo
A disposição geral da Capella de
Petropolis, em planta, é inspirada na Capella de Sion de Paris. Como aquella, a Capella de Petropolis tem uma nave
central e duas collateraes; ambas têm tribunas late-raes e nos
fundos no 2.° pavimento.
O coro, porém, que é de forma rectangular, na Capella de Paris, é semi-circular na de
Petropolis, formando a abside.
A adopção das linhas geraes de estructura da Capella de
Paris na nova construcção teve um duplo fim. Sendo as congregações brazileiras
filiaes da de Paris, a disposição adoptada
teve por fim primeiro estabelecer esta união, esta filiação entre as
duas casas.
Além dessa razão de ordem
geral, uma segunda, e de ordem particular e
pessoal, aconselhava este critério. .
Pêlos regulamentos da ordem o noviciado de cada religiosa é feito em Paris.
Ora, esse tempo representa, para cada religiosa, um
periodo de vida dos mais caros, qne, com o recuar dos tempos, mais caro ainda
se torna.
Relembrar, pois, esses tempos idos n'um ambiente destinado á meditação e
oração, é, sem duvida, trazer á mente uma recordação grata.
Mas copiar aquelle templo e transportal-o para o nosso
solo, cujo clima e cujos ideaes não são os mesmos dos povos europeos, não seria
razoável.
Tornava-se necessário ao mesmo tempo que se estabelecia,
por este critério, a unidade de ordem, accentuar a diversidade do meio.
Assim, nem as proporções são as mesmas, nem a decoração é
a mesma, nem o estylo é o mesmo.
Emquanto aquella, em suas linhas de estructura e de
ornamentação é bisantina, esta é de estylo Renascença Italiana.
Estylo
A adopção deste estylo era aconselhada por diversos motivos.
Em primeiro logar, a Capella deveria ser construída na
área interna de um edifício de estylo romano; o estylo do novo edifício
deveria ter, pois, affinidades com o do
velho.
Depois, em suas linhas de estructura deveria a nova
construcção assemelhar-se, pelas razões já expostas, á Capella de Paris.
Ainda mais, devendo ser este templo edificado em uma cidade do Brazil, paiz profundamente democrático,
emancipado dos preconceitos de raça, de casta e de religião mesmo, embora a
maioria de seus habitantes abrace a religião catholica; paiz que em sua historia conta vultos como a
Princeza Isabel que não
trepidou em jogar a sorte do throno em prol da libertação dos escravos, e o magnânimo monarcha Pedro II, digno emulo de Marco Aurélio; paiz
cuja mentalidade é bem diversa da
mentalidade francesa, embora
seja, dentre os povos do occidente, aquelle com que maiores affinidades tem, pareceu-me que esse espirito liberal deveria ser accentuado, sem o modernismo, incompatível com a egreja tradicionalista, em cujo seio a simplicidade e a ordem
devem reinar.
Ora, em toda a antiguidade, o
espirito de liberdade e
emancipação do artista jamais manifestou-se com maior vigor do que ao tempo da Renascença Italiana. O sopro de vida nova nas artes caracterisou-se pelo justo equilíbrio entre as altas idéas
mo-raes e o amor da natureza, pela
volta ás tradições da antiguidade,
fonte de eterna belleza.
A Renascença nas artes estudou a
antiguidade e mostrou como, observando-a com um
espirito mais emancipado, um espirito mais
identificado com a natureza,
podia ser ella interpretada e representada de outra forma.
A Renascença Italiana abrange vários
séculos ; escolhi o período dos quatrocentistas, por ser o mais bello e o de formas mais puras, como convinha ao caso.
A frente dos mestres do século XV acha-se, sem contestação, Felippo Brunelleschi. A este, mais que
a qualquer outro grande architecto,
se deve o impulso que teve a architectura.
No dizer de Vasari foi elle «donato
dal cielo per dar nuova fOrma
all'architectura».
Brunelleschi foi o primeiro
archicteto da Renascença que banio, de um modo
systematico, qualquer dispositivo da arte
ogival nas suas construcções. Assim elle não só é um dos precursores,
como também teve a gloria de ter orientado definitivamente o movimento da
Renascença na Architectura.
Luigi Serra, na sua Storia delTArte Italiana, referindo-se
á obra de Brunelleschi diz: «II segreto delia sua
belleza sta nella grande simplicita dei mezzi adoperati,
nella grazia dei singoli elementi architet-tonici, n'ell' armonia deli' ensieme (armonie de linee, de chiaroscuro,
di colore) e n'ella squisita so-brietá
degli ornati che non sopprimono o alterono 1'organismo architectonico ma Io
compiono».
Assim o estylo de Brunelleschi pareceu-me o mais adequado
por satisfazer a todas as exigências, tanto mais quanto, a cidade em que elle
exerceu a sua principal actividade — Florença — pela doçura do seu céu e do seu
clima, tem algo dos encantos da linda cidade serrana, onde deveria ser
edificada a Capella de Sion.
Construcção
e decoração
Para elucidar o systema constructivo e decorativo deste
edifício junto diversas plantas e cortes convenientemente cotados, assim como
diversas pho-tographias de capellas, egrejas e detalhes de edifícios
construídos no período da Renascença Italiana.
O solo sendo consistente, as fundações não offereceram
nenhuma difficuldade; a alvenaria empregada nos muros foi a de tijolo com
argamassa de cal, areia e cimento; está o edifício coberto com telhas nacionaes typo francez.
A parte mais interessante da construcção é constituída
pelas abobadas e pêlos grandes arcos.
Esses grandes arcos de volta inteira foram construídos
de alvenaria de tijolo com argamassa de cimento
e areia.
Foram extradorsados parallelamente e têm quatorze
centímetros de espessura em toda a volta.
Até a altura dos rins foram
construidos dois pequenos muros, perto das
extremidades desses arcos e de espessura de meia vez de tijolo, sustentando-os
e vindo apoiar, de outro lado, nos grandes pilares que sobem até o alto para
supportar a cobertura.
Esses arcos foram construidos sem cimbre, assim como sem cimbre foram construídas as abobadas
que têm, sem o revestimento, sete centímetros de espessura, apenas, e
são de alvenaria de tijolo furado.
A ornamentação da Capella é a mais simples e a mais
sóbria possível.
Nem um friso dourado existe, nem um só colorido nos
muros.
Apenas dois tons foram usados para formar o chiaroscuro que é o característico mais accentuado do estylo Brunelleschiano, fácil de sentir a sua
grandiosidade, mas impossível de descrever por palavras, ou de graval-o
em desenhos e photographias.
As paredes e as abobadas são brancas, as molduras, os
ornatos, os capiteis, os balaustres, as archivoltas,
etc., são escuros de um tom cinzento ligeiramente esverdeado.
O estudo comparativo das photographias da Capella e das
que, sob os ns. 1 á 12 junto, melhor exprimem que qualquer descripção sobre a
apropriação e o cuidado com que foi feita a decoração da referida Capella.
As de ns. 1 á 5 mostram como foram estudadas as formas de
estructura da Capella de Sion sendo (*)
a 1.a deli'interno
delia Cappella de Pazzi de Brunelleschi.
a 2.a deli interno delia B adia fie solana, do mesmo autor.
a 3.a
Delia Cappella de S. Spirito de S. Gálio.
a 4.a
delia Biblioteca Medico Laurenziana de Michelangiolo e Vasari.
a 5.a
deli 'interno delia Chiesa de S. Lorenzo de Brunelleschi.
As photographias de ns. 6 e 7, ambas de obras de Brenelleschi, forneceram os detalhes da
ornamentação dos arcos e das abobadas.
A photographia n. 8 representa um capitel da Badia
fiesolana já citada, capitel adoptado na nova construcção.
A de n. 9 representa uma balaustrada de Giuliano San Galio.
Este architecto já é de geração
posterior á Brunelleschi.
A riqueza da ornamentação do balaustre e a sua forma
retorcida viriam a constituir uma dissonância
se o empregasse, tal qual é visto nesta photographia.
(*) A numeração abaixo não está muito exacta porque
depois de impressas estas memórias resolvi escrever uma these — A Architectura
e os Architectores do Século XV, sendo algumas destas photographias reunidas no álbum que
acompanha esta these.
Delinei o seu perfil que é bello e perfeitamente da época
e assim o empreguei.
A photographia n. 10 é ainda de uma obra de San Gálio.
Forneceu-me este documento a forma dos cai-xetões da
abside, sem a ornamentação exagerada que ahi se vê.
As photographias de ns. 11 e 12 são de obras de
Michelangiolo; a primeira forneceu-me o typo do sarcophago que está aos pés da
Virgem e o segundo os das janellas fingidas, onde se acha reservado lo-gar a
ser occupado pêlos 4 Evangelistas.