Villa Itararé

Relação dos documentos apresentados à Congre­gação da Escola Polytechnica.

a) l photographia do primitivo projecto.

b) 3 grandes photographias do prédio edificado de accordo com a modificação feita no projecto.

c) uma gravura.

d) 5 grandes photographias de vistas de decoração do interior.

e) 5 copias em papel ferro prussiato da planta, fachadas e cortes. (*)

f) l planta das fundações feitas por meio de poços.

g) l desenho de um corte de um trecho das fundações,

com o estado das forças.

h) 4 photographias tiradas por occasião dos trabalhos das fundações.

i) l pagina do relatório dos trabalhos das fundações.

j) 9 photographias das fundações e pilares de cimento armado para um augmento do referido edifício.

k) l desenho de uma torre lateral projectada para as novas construcções.

Em princípios de 1902 fui convidado pelo meu saudoso amigo o Príncipe de Belford para fazer o estudo de um projecto, elaborado pelo Sr. John Oberg, para ser construído no melhor ponto de Petropolis. O projecto em questão é o que representa a photo­graphia n. i.

(*)    Na execução foram feitas pequenas modificações de   modo  que estas plantas não são rigorosamente exactas.

Acontecêo porém que, para as dimensões do terreno, o projecto era demasido grande; assim, foi preciso modifica-lo de forma a estar a construcção mais proporcionada com o local.

O palacete hoje existente é o que se vê nas photographias ns. 1, 2 e 3 e consta das plantas, fachadas e cortes diversos em numero de 6 folhas de papel ferro-prussiato. (*) Nesse mesmo anno de 1902 foi iniciada a construcção deste edificio que só ficou concluído em princípios de 1904. O largo tempo, cerca de 18 mezes, empregado na sua construcção foi devido a natureza do terreno, que exigio fundações especiaes e aos cuidados da sua decoração interior.

Construcção

Em diversos pontos do terreno, onde deviam assentar as fundações, foram feitas escavações de um metro, mais ou menos, de profundidade e depois de convenientemente nivellado sobre elle colloquei uma mesa de madeira, cujos pés de for mavam uma superfície de 400 centímetros quadrados.

Esta mesa foi carregada com tijolos cujo peso era conhecido e assim foi verificado que, com uma carga correspondente á 400 gr. por centímetro qua­drado, os pés começavam a enterrar-se pelo solo. Aliás, á simples inspecção, podia-se constatar a má qualidade do terreno.

Ora, sendo a carga do edificio uniformemente distribuída sobre o terreno de mais de 20.000 kgr. por metro linear verifica-se a impossibilidade do em­prego das fundações ordinárias.

Uma sondagem do terreno permittio estabelecer as suas diversas camadas e verificar que, a cerca de ^oo de profundidade, encontrava-se terreno, de cascalho firme. Resolvi, pois, fazer as fundações por meio de poços de concreto e arcos de alvenaria de tijolo.

Foram construídos 24 poços, conforme se vê da planta que junto, cujos diâmetros e formas variaram de accordo com as necessidades do projecto. O poço maior tem 2,I?5O de diâmetro interior e o menor i, 10. Foram também construídos poços elipticos de diversos tamanhos, não tendo sido verificado, na pe­netração no solo, senão insignificantes desaprumos devido ás cautelas tomadas para esse fim.

A planta das fundações, o estudo geral da destri-buição das cargas feito para cada arco, e que, para maior esclarecimento junto a um exemplar, as photo-graphias tiradas durante as obras e o relatório com-, pleto do trabalho, de que junto também uma pagina, dão todas as indicações precisas e dispensam qual­quer descripção.

O trabalho corrêo com toda a regularidade;,uma anomalia, no entanto, foi assignalada. Fiz sondagens em diversos pontos e tendo encontrado as mesmas camadas e o terreno firme a uma profundidade quasi que constante, abstive-me de fazer a sondagem para cada poço.

Assim, tinha já construídos os poços ns. 7 e 8 e o arco que os liga quando, ao enterrar o poço n. 9, o encarregado do serviço communicou-me que não achava fundo para o mesmo. -

Uma sondagem feita, então, demonstrou que, á um metro e meio abaixo do nível inferior do poço n. 8, ainda não se encontrava o terreno de cascalho onde assentaram os outros poços. Esse terreno era constituído de areias fluentes. Receioso de descalçar o poço já construído e de prejudicar o arco 7-8, também já construído, resolvi fazer, ao longo das pa­redes do poço, uma ensecadeira interna com taboas de 2™ 5 de comprimento e i 2 cm. de largura. Contidas assim as areias, sobre ellas lancei o concreto e ter­minei o enchimento do poço da mesma forma que os anteriores, isto é, concreto na proporção de i: 3: 5 até pouco mais de i metro de altura e alvenaria de pedra com argamassa de cimento e cal até em cima.

Os arcos foram construídos com tijolos especiaes, requeimados até o ponto de vetrificação e argamassa de i de cimento para 3 de areia doce. A largura e o vão dos arcos variaram conforme as necessidades do projecto, sendo a maior largura de i™2O e o maior vão de 4 metros, conforme se verifica da planta das fundações.

Os poços 22 e 23 foram ligados por vigas de aço, em vez de arcos. Para maior economia de mão d'obra os arcos foram extradorsados parallelamente. Quando os poços achavam-se muito juntos uns dos outros, como no caso dos poços 4-6, 5-7, 23-24 etc., foram empregados lages de pedra em vez de arcos.

Durante a execução dos trabalhos das fundações pude constatar a existência de numerosas raízes de arvores e o testemunho de velhos operários do lugar, que ahi foram chamados a trabalhar, confirmaram a existência de uma antiga lagoa.

Um grande e abundante lençol d'agua, de facto, foi encontrado e com tal pressão, que o operário que trabalhava na escavação do fundo do poço fazia-o com uma corda passada sob os braços, para ser auxiliado na subida desde que, com o enxadão, era perfurada a camada do terreno impermeável. O custo total das fundações importou, conforme relatório completo em meu poder, em pouco mais de i8:ooo$ooo.

No tempo em que foi executado estes trabalho o cimento armado, embora já conhecido, não era de applicação corrente, e ainda hoje, na maior parte dos casos, são chamados profissionaes especialistas para a sua execução.

Passados no entanto i 5 annos, em outro ponto deste mesmo terreno e para nova construcção, em­preguei com mais economia, para um prédio que devia ter 4 pavimentos, as fundações em cimento ar­mado, estabelecendo um «radier» geral sobre uma superfície de 350 metros quadrados.

Desse trabalho, estudado em collaboração com o meu amigo e collega Dr. João Baptista de Moraes Rego e de cuja execução foi encarregado um espe­cialista, foram tiradas as diversas photographias que junto.

Junto também o desenho da torre que projectei para a nova construcção.

Todo o embasamento do edifício existente foi construído de cantaria rústica. O resto da construc­ção, que primitivamente fora projectado também de cantaria, foi concluído em alvenaria de tijolo, com revestimento de cimento e areia, imitando cantaria rústica.

Todas as esquadrias e madeiras empregadas na construcção são de embuya do Paraná, de superior qualidade. As 5 photographias do interior mostram a decoração das differentes salas, de que foram en­carregados diversos professores da nossa Escola de Bellas Artes — Teixeira da Rocha, Modesto Brocos e Gustavo Dálara.

 

Estudo de um frecho das fundações da «Villa Ifararé»

A figura da pagina representa um corte ver­tical longitudina Ipassando ao meio do arco que liga os poços 2 — 3.

Á parte situada á direita de O I é symetrica e em tudo análoga á parte que lhe fica á esquerda ; não foi colorida com as cores convencionaes para melhor podermos fazer o estudo da determinação dos centros de gravidade e da composição das forças.

Demos á parte do edifício que é construído de cantaria uma tinta convencional differente da geral­mente usada para maior clareza do desenho.

O arco em questão foi construído de alvenaria de tijolo com argamassa de cimento e areia na pro­porção de i para 2 i/2.

O raio do intradorso é de i,m55 e o do extra-dorso de 2,mio o que significa que a espessura do arco é de o,m55, ou duas e meia vezes de tijolc re-queimado até a vitrificação.

Esse arco, que tem i,mi5 de largura foi, para maior economia de mão d'obra, extradorsado paral-lelamente.

Sendo a figura symetrica em relação a um plano vertical normal ao do papel e cujo traço é O I, podemos fazer o estudo das forças que actuam sobre uma das metades do arco e compor a sua re­sultante com a reacção que a outra metade do arco exerce sobre a parte considerada.