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Publicado na Tribuna de
Petrópolis, p.2, 07/11/2006 |
OAZINGUITO FERREIRA DA SILVEIRA FILHO -
PROFESSOR E PESQUISADOR, LICENCIADO
Quem poderia imaginar
que semelhante processo ocorrera em Petrópolis no inicio do século XX e
assustava a população do primeiro distrito, não especificamente a população dos
quarteirões que eram pobres, mas não viviam em estado de miséria, a ponto de
alterar-lhes o comportamento social, como muitos historiadores locais afirmaram.
Nos quarteirões, brigas com características
domésticas ou de litígios de propriedades ocorriam, não com grande freqüência.
Muito raramente uma morte, mas esta geralmente vinculada sim a outros elementos
como o do transporte de gado dos marchantes para o matadouro municipal. Não
devemos negar, mas o negócio com gado rendia aos cofres municipais a terceira
renda em impostos, sendo antecedida pelo predial e industrial.
Nosso matadouro só era superado pelo de
Santa Cruz.
O aparecimento de cadáveres de operários imigrantes em épocas
espaçadas, talvez anarquistas, líderes grevistas, vez por outra era assinalado
nos jornais, um indicador da opressão econômico-social existente em uma cidade
onde predominavam características operárias e em uma minoria rural.
O primeiro distrito, outro universo. Como se
comportasse uma cidade dentro de outra. Senão vejamos pelas estatísticas da
época.
O censo realizado pela Câmara Municipal
em 1902 indicava que Petrópolis possuía: 15 avenidas, 49 ruas, 9 praças 4
quarteirões 3 estradas e 1 travessa (Tribuna de Petrópolis,
09/04/1903).
Uma população de aproximadamente 30 mil pessoas (incluindo
provavelmente a dos quarteirões, que deveriam aproximar-se das 5 mil) com cerca
de 10 mil operários espalhados pelas grandes, médias e pequenas industrias que
abundavam a cidade (predominando os quase mil da Cascatinha). Depois do Rio,
esta era a segunda população operária do Estado.
O centro do primeiro distrito, limites de uma
elite, onde os veranistas inundavam a cidade, fugindo das epidemias do Rio, o
que atraía também a mendicância e a violência.
Petrópolis encerrava seu
ciclo como Capital do Estado, cuja transferência se dera em função da Revolta da
Armada, e as repartições públicas começavam a voltar para Niterói diante
verdadeira batalha política entre os seguidores de Hermogênio Pereira da Silva,
chefe local, e o presidente do Estado, general Quintino Bocaiúva.
Devemos
salientar que estatisticamente a violência e a mendicância aumentaram
demasiadamente com a transferência da capital.
Alguns fatos destacados em
pesquisas na Tribuna de Petrópolis no ano de 1903 e que tornam-se um indicador
da situação:
24 março
A comunidade tem reclamado junto à
municipalidade e a policia a grande quantidade de mendigos que andam explorando
caridade publica no centro da cidade, andando nas calçadas e nas vias e sujando
a cidade espalhando toda a sorte de detritos;
02 de abril
No
quartel onde se acha alojado o 38º. batalhão, um praça
não identificado, constantemente alvo de piadas dos camaradas feriu com uma faca
um companheiro, empurrando brutalmente. (...) foi iniciado interrogatório, para
abrir inquérito policial-militar para apuração do
delito;
11 de julho
Continua em alta o
numero de assaltos na cidade, desta vez foi à charutaria que fica na entrada do
Teatro Fluminense. Foi assaltada anteontem à noite e os gatunos levaram a
fantástica quantia de 600$000. Para a tristeza, o que é digno de nota é que este
é o estabelecimento que fica de fronte a repartição da polícia e do corpo da
guarda. Ninguém viu quem foi que praticou o roubo, nem a própria sentinela de
plantão;
14 de julho
A população da
cidade recebeu com indignação a noticia de um ato "aviltante" cometido no
cemitério desta cidade, cometido por indivíduos sem sentimentos religiosos e de
uma baixeza inqualificável. Esses indivíduos, que em grande número infestam as
ruas da cidade e assediam os logradouros públicos, assaltaram aquele lugar
sagrado. Durante a noite de sexta feira passada, tendo penetrado pelo muro, os
malfeitores entraram no cemitério e cometeram toda sorte de atropelos, avariando
os túmulos e roubando objetos que se lhe afiguravam de valor. Retiraram
oratórios, crucifixos, castiçais, vasos, e demais objetos ali colocados pelas
mãos piedosas de crentes, principalmente nos túmulos das melhores famílias da
sociedade. Ao Sr. Miguel Pereira, delegado de polícia, foram cobradas
providências quanto ao fato;
22 de
agosto
Ocorria ontem o boato de que as autoridades policiais locais andam
receando qualquer manifestação por parte dos funcionários da Fabrica da
Cascatinha, e requisitara um reforço de contingente policial que daqui
(Petrópolis) foi destacado.
24 de setembro
No trem da manhã chegou
a esta cidade o reforço de 12 praças militares da polícia do Estado, comandados
pelo segundo sargento Loretti. Este contingente é para
escoltar diversos presos que serão transferidos da cadeia de Petrópolis para a
detenção de Niterói;
8 de outubro
É
grande o número de reclamações quanto ao alto numero de indivíduos que fizeram
das ruas o seu meio de vida, invadindo a cidade de Petrópolis e tendo sido
corridos de outros municípios, onde as autoridades estavam pondo em execução a
lei Alfredo Pinto. Iludindo os incautos os exploradores não olham meios de
exercerem sues preciosos vícios e armam suas tendas onde abundam os jogos de
Bacarah e outros que correm
parelha com a roleta ou os cavalinhos, não é justo que tais indivíduos
passem pela regra calados como nababos enquanto todas as classes aqui sofrem,
principalmente o comércio que tem persistido a ação do Sr. delegado de
polícia;
7 de novembro
Continuam constantes as reclamações sobre
os malandros e gatunos que ultimamente tem se exibido na cidade. São constantes
os roubos e depredações em diversas casas de famílias e comerciais, além de
lojas comerciais assaltadas por estes indivíduos.